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Prometi a mim mesmo que não escreveria nada de extemporâneo sobre o incêndio de Monchique. Apesar da dificuldade, acreditem que a vontade era muita, não o fiz. Esperei para a situação serenar na expectativa de ter todos os elementos que me permitissem elaborar um artigo de opinião objetivo e, sobretudo, verdadeiro. Afinal, não devemos fazer juízos precipitados. Agora, à devida distância, sinto que o devo fazer por uma questão de consciência e dever para com as populações afetadas pelos incêndios da semana passada. Façamos, então, uma curta viagem no tempo. É o início da nossa história medieval passada no Reino dos Algarves.
Manhã de sexta-feira, dia 10 de Agosto. Uma semana depois do incêndio de Monchique ter deflagrado, o Ministro Eduardo Cabrita chega ao Algarve munido apenas e só do seu intelecto e da sua, devo dizer, latente arrogância pizarrista. Ao bom sabor medieval, tocam os tambores. Somos todos ignorantes e desprovidos de sensatez. Temos estado à espera que um Illuminati nos explique o que realmente sucedeu. Na verdade, os algarvios têm uma visão obscurecida dos acontecimentos. Os incêndios foram – no limite – essenciais para constatar a pronta resposta dos meios de proteção civil. Foi tudo em prol da comunidade monchiquense. Palmas. Muito agradecidos por tamanha honra, ouve-se em surdina. Apresenta-se o muy nobre senhor Cabrita. Do alto do seu raciocínio socrático – misturado com uma aura de conquistador espanhol -, e mergulhado no espírito vanguardista dos twitters de António Costa, Cabrita dirige-se aos jornalistas e, mais importante, aos algarvios. Não vem de Caravela, mas traz altivez e uma poção mágica guardada no seu manto bordado a mentiras. Com o seu porte senhorial, pulveriza-nos o fármaco. É o suficiente para hipnotizar as almas perdidas. Talvez por ter feito uma visita guiada ao alambique do Rui André, julga-se divino e profere algo semelhante ao bíblico Sermão da Montanha. Por momentos, o núcleo terrestre deixa de girar. Atrás do Sr. Ministro, perdão, do muy nobre senhor, seque o séquito de aias e gueixas algarvias, com os seus imponentes coletes de cor laranja. Cospem fogo e fazem malabarismos. Manifestam o desejo de provar a sua existência política porque, na realidade, ali não acrescentam nada. Ao longe vislumbram-se uns sorrisos que brilham quando as câmaras de televisão estão a gravar. Atropelam-se e, pasme-se, vendem o Algarve com um único propósito: cair nas boas graças do muy nobre Ministro. São algarvios? Talvez não. São Presidentes de quaisquer coisas, mas donos de lugar nenhum. O cortejo continua. Entram mais alguns bobos e a festa instala-se. Cabrita prepara o terreno para a chegada da corte lisboeta. Tarde de sexta-feira, dia 10 de Agosto. Combinada a entrevista ao Expresso, numa clara tentativa de combater a onda crítica que germina no Reino dos Algarves, o Príncipe João, peço desculpa, o Príncipe António Costa chega a Monchique. Rapidamente, dirige-se ao alambique do Rui André – a cave já está quase vazia depois da visita do Cabrita – e embrenha-se num ritual complexo, mas simples: a arte do bebericar. Como um pardal num dia de chuva, beberica muito. A visão do Primeiro-ministro é ofuscante e o andar estranho, to say the least. Cambaleia. Costa estranha a palete cinzenta que as cinzas dão à paisagem, tão diferente da roseira de Sherwood do Palácio de São Bento, verdejante, verdejante, verdejante. Não estranha tudo. Afinal, o cheiro a queimado persegue-o desde Pedrogão. O pequeno Kim da política portuguesa, depois de ter proferido que Monchique é a “a exceção que confirmou a regra do sucesso”, compara a terra algarvia à Califórnia. Conclui, afirmando que é «absolutamente extraordinário» que ninguém tenha perdido a vida. Bom, isso não corresponde inteiramente à verdade. No Reino dos Algarves todos os dias perdem a vida súbditos de Sua Alteza Real nos Hospitais e na EN125, mas essa é outra (triste) história. Continuemos. Os boçais que o ladeiam não entendem o latim. Afinal de contas, nos EUA os bombeiros estão coordenados por uma proteção civil eficiente. Aqui o boy Vaz Pinto – o tal das “equivalências” à la minute –, revela (novamente) incompetência no desempenho da sua função. Ninguém estanha. Faz parte daquela fornada “licenciada” que não soube lidar com os incêndios do ano passado. Depois do Caldeirão, Monchique vê-se refém deste escudeiro de 2ª classe. É substituído quatro dias depois do incêndio ter deflagrado, quando já não há nada a fazer. Pergunta: se o combate inicial fosse diferente o incêndio teria tomado esta dimensão? Não sabemos. Os ébrios saúdam o comando nacional da proteção civil. O cortejo continua acrescentando-lhe, agora, alguns palhaços malabaristas. A ocasião assim o exige. O Príncipe saúda o Cabrita pelas ordens que deu à GNR. Pode arder tudo, não pode é haver mortes. Tudo menos isso. Objetivo alcançado. Comemoram. Sorvem mais umas gotas do líquido precioso escondido, desta vez, no alforge do escudeiro Luís Graça que terá uma incumbência futura: criticar a Câmara Municipal de Monchique. “São eles, os monchiquenses, os verdadeiros culpados disto tudo”. É esta a mensagem que o fiel lacaio deve passar. Dão-lhe a devida recompensa, jogando para o chão alguns dinheiros rapidamente arrebanhados por tão menor membro da corte. Olha para os seus Senhores de baixo para cima. Dão-lhe uma festa. Ele sorri, extasiado no meio de espasmos musculares. Continuam. Sábado, dia 11 de Agosto. O vendedor da banha da cobra pragueja do alto da serra. Chega o Rei Marcelo. A corte é maior, a vergonha menor. Dois ou três plebeus dizem o que lhes vai na alma. A guarda real tem dificuldade em conter o desagrado. O defensor da terra de Monchique, o nobre José Chaparro, lê as cartas ao Rei reforçando o desagrado dos plebeus. Marcelo afirma que devemos analisar o problema com «serenidade». Naturalmente meu muy nobre Senhor. Não devemos agitar as águas do Reino até porque alguém se pode lembrar do edital de Pedrogão ou de Tancos. Em 2019, o Reino vai a votos. Passeiam-se todos juntos pelos Paços do Concelho como se nada se tivesse passado. Dizem adeus. A caravana abre caminho de volta à corte lisboeta. Chaparro dá nota do seu desagrado e atira-lhes medronhos maduros. Costa dá ordem para parar. Enchem os alforges, pois nunca se sabe se haverá um alambique a caminho de Lisboa. No reino da loucura é preciso bebericar. Bebericar muito. A visão fica ainda mais toldada. Fica a promessa de regressarem. Alguém diz: não voltem. Com razão. Nota aos leitores do lugar ao sul: esta é apenas uma “história” medieval fictícia que não corresponde necessariamente a nenhum fato real, ou será que sim?
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Por Joana Cabrita Martins Durante 7 dias... 27 mil hectares... do saudável e vigoroso pulmão do Algarve ficaram carbonizados! O Algarve padece, e não é de agora, de uma doença crónica, como aliás todo o Portugal. DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica) em estádio grave com uma percentagem elevada de incapacidade respiratória, cuja recuperação vai exigir uma terapêutica radical e prolongada. Foram 7 dias não de criação divina mas de destruição diabólica. E ouviremos com certeza, mais dia menos dia, Assunção Cristas dizer que este incêndio só foi travado por intervenção divina, porque ao 7º dia como todos sabemos há que descansar. Ouvi muito, li muito e vi muito, neste momento estou ainda a tentar ingerir e digerir tanta informação e contra-informação. Não sendo entendida na matéria, esta é no entanto um assunto que não me é minimamente indiferente. Se por um lado se verbaliza com um sorriso que esta calamidade, que outro adjectivo não o tem, foi a excepção que confirmou um sucesso a nível nacional no combate aos incêndios. Outros dizem estar muito satisfeitos “ de estar aqui a celebrar a circunstância de estarem vivas", referindo-se obviamente às pessoas, porque animais e vegetação não tiveram a essa sorte de poder dar essa mesma satisfação ao Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. A mim, custa-me de facto perante a realidade encontrar alguma satisfação e/ou sucesso. Mas neste alinhamento de pensamentos deveria ser positiva e pensar que felicidade a minha avó ter morrido há 8 meses de forma a não presenciar o fogo a bater-lhe à porta!!! Mas não, não consigo pensar positivo como os senhores que agora iniciam o seu desfile na passadeira vermelha até hoje, e cinza de hoje em diante... Que tenham cuidado para não caírem dos vossos saltos altos Sr. Costa, Sr, Cabrita, Sr. Marcelo... Deixo para reflexão um excerto da intervenção de Clemente Pedro Nunes (Professor do Instituto Superior Técnico) em duas edições do Negócios da Semana, programa da SIC Notícias, respectivamente: 17-08-2017 _ Negócios da Semana: porque razão arde Portugal? 01-03-2018 _ Negócios da Semana: limpeza das florestas é possível até 15 de março? Por Luís Coelho
O monstro está à solta em Monchique: desde 03 de Agosto de 2018 que o fogo lavra intensamente neste que é(era...) um dos mais bonitos concelhos do Algarve. Vidas destruídas. Património delapidado. História perdida. E o que mais revolta é que este é um cenário que se repete vezes sem fim. Por Gonçalo Duarte Gomes
Há uns anos valentes, mudou-se para a Rua de Santo António, em Faro, um mono. Por entre causada sensação e vivaz furor, dentro de uma jaula, um macaco de peluche agitava-se freneticamente, alardeando em castelhano “Hola, yo soy el mono! Habla comigo!” e prometendo brindes a troco de míseras moedas. Pois bem, o Algarve está cada vez mais parecido com ele. Por Bruno Inácio A pintura surrealista "La trahison des images" (1928/1929) em que René Magritte nega o que estamos a ver. Na realidade não estamos a ver um cachimbo mas a representação de um cachimbo. 26 de Julho de 2018
“Hospitais do Algarve, Évora, Coimbra e Lisboa Central com maior número de vagas para médicos” 30 de Julho de 2018 “O Algarve precisa de 67 médicos para o Verão mas ainda não conseguiu nenhum” 30 de Julho de 2018 “Ministério da Saúde procura anestesistas a todo o custo, para suprir carências no Algarve” 30 de Julho de 2018 “Ministério da Saúde admite rever atrativos para colocar médicos no Algarve” Quatro títulos de noticias do jornal Público em apenas quatro dias mostram uma realidade que todos conhecemos, que alguns procuram ignorar, que outros querem pintar de cor-de-rosa e que outros usam como arma de arremesso. Olhemos para o problema com as lentes que quisermos mas só por falta de honestidade intelectual é que diremos que não temos um problema. Não sendo de agora, é um problema que também existe agora. Identificado o problema, reconheça-se que os últimos governos têm procurado encontrar soluções para o minimizar. Seja através de trabalho extraordinário, contratação externa, autorização para médicos aposentados regressarem ao serviço, incentivos para a fixação de médicos. De uma forma geral, as soluções tiveram um efeito anestesiante e não resolveram a questão de fundo que, por força da lógica, se acentua profundamente no verão. Chegamos pois a um ponto em que temos um desequilíbrio brutal entre a quantidade de médicos em Lisboa, no Porto e em Coimbra relativamente ao Algarve (e ao resto do território). Será qualquer coisa como o dobro. Ou seja, em Lisboa, Porto e Coimbra existem mais do dobro dos médicos por habitante do que existe no Algarve. Também este fenómeno se explica por várias razões mas se as formos esmiuçar encontraremos os mesmos factores que levaram (e levam!) a um desequilibro territorial que existe no país entre o litoral e o interior e entre os centros urbanos e as periferias. Está visto e comprovado, várias vezes comprovado, que não são os incentivos e as outras medidas anestesiantes que vão fazer mudar a situação. E sim, é uma situação preocupante porque falamos do bem principal que devemos ter a capacidade enquanto Estado (todos nós!) de providenciar de forma generalizada e tendencialmente gratuita. Urge pois medidas de carácter estrutural, radicais (se preferirem o termo!) e consequentes. Seja a construção de um hospital central, seja a obrigatoriedade de colocação na região por determinado tempo, seja a rotatividade que obrigue ao serviço em determinado local do território. Não podemos continuar a formar médicos e continuar com falta de médicos. É claro que não têm de ser os médicos a resolver os problemas que cabe à gestão política, portanto cabe à gestão política implementar medidas, eventualmente impopulares, que se impõe na resolução do problema. Posto isto, e tendo em conta o conto de fadas que temos vivido neste país nos últimos quatro anos, estamos todos (mesmo aqueles que dizem que não e que pintam o país de rosa) certos que isso não vai acontecer. Portanto, por cá, cada um que se amanhe! Na passada Sexta-feira, dia 27 de Julho, o "nosso" João Fernandes tomou posse como novo presidente da Região de Turismo do Algarve. O Lugar ao Sul fez questão de estar presente, através de vários dos seus membros, para felicitá-lo e apoiá-lo neste seu novo e exigente desafio. O turismo é um dos temas mais debatidos neste Lugar, frequentemente polarizador, ou não fosse uma actividade de impacto preponderante nas dinâmicas económicas, sociais e também ambientais da região.
Num tempo em que o sector vive tempos de euforia, graças a um desempenho notável a vários níveis, mas em que se adivinham rápidas e significativas mudanças na conjuntura internacional, concretamente ao nível de mercados concorrentes, a renovação, a dinâmica e a inovação afiguram-se, cada vez mais, como traços estratégicos a incorporar. Para além disso, pelo seu papel central na economia regional e pelos impactos que gera, o reforço da responsabilidade social e ambiental do turismo é cada vez mais fundamental. Tais tarefas são desafiantes e complexas, e o contributo da Região de Turismo do Algarve será decisivo. Pela sua capacidade e competência, pelas suas ideias e pela sua postura, acreditamos que o João, acompanhado pela sua equipa, é a pessoa certa para alcançar esse objectivo. Votos de um excelente trabalho, João! Por Joana Cabrita Martins Hoje venho-vos falar de uma paixão antiga que ainda continua acesa... não é fácil mas há paixões assim! As bicicletas! Tenho uma longa e apaixonante relação com elas desde pequenina. E a verdade é que até hoje ainda não tivemos um desgosto de amor. Tem sido uma relação duradoura, sem altos e baixos. Começou como tantas outras, aos fins-de-semana às escondidas da mãe. Saíamos de casa, lá para os lados do Medronhal, um sítio da freguesia de Santa Barbara de Nexe, Faro, eu e o meu primo, cada um com a sua amada e dizíamos à minha mãe que íamos a casa de uns amigos ali ao lado em Estoi. Meia dúzia de metros percorridos cada um ia namorar para seu lado... ele para Estoi para casa de amigos e eu... para a Praia de Faro. De casa à praia e da praia a casa... sozinha com a minha bicicleta... liberdade e felicidade... o meu maior preenchimento. Este foi o início de uma grande paixão, hoje um grande amor. Arrufos?! Não me recordo, a não ser no dia em que o meu pai resolveu oferecer-me uma nova bicicleta para substituir a 1ª, a pequena BMX amarelinha, em que me iniciei nestas lides. Fomos os dois busca-la, virgem e imaculada, ao Faro Shopping (sim era o que existia na altura), e eu fiz-me à estrada em cima dela até ao Medronhal, para termos o nosso primeiro momento a duas. A meio do caminho sem eiras nem beiras, ao sermos ultrapassadas por um automóvel resvalei contra um murro que substituía a beira da estrada e ... Ficamos com uns arranhões e uns sermões, da mãe, para memória futura daquele primeiro dia. Depois seguiram-se uns anos de abstinência, porque me mudei para Lisboa e a nossa relação tornou-se esporádica e à distância. Mas a paixão não esmoreceu e ... redescobri-a em Bolzano, Itália, onde vivi faz agora 10 anos. Foi amor à primeira vista pela minha Viaggera, assim a apelidei, estava em Bolzano fazia 2 semanas, e não mais a larguei até hoje... Percorremos kms num lugar ao norte de Itália desde então. E agora percorremos km num lugar ao sul de Portugal. Temos uma relação sólida em que nos acompanhamos diariamente para todo o lado, relações esporádica e aos fins-de-semana foram coisas da adolescência. Somos felizes! Serve esta história de amor para introduzir o tema da mobilidade em bicicleta que como poderão imaginar é algo que a mim e à Viaggera nos toca profundamente. Sendo este lugar ao Sul uma região com tradição no ciclismo como desporto de destaque, confesso estranhar a lacuna que existe na sua utilização como meio de transporte diário para curtas distancias. As cidades Algarvias enquadram-se todas elas no padrão de dimensão em que o meio de transporte privilegiado deveria ser a bicicleta. Porque as distâncias a percorrer são mais rápidas de se fazer de bicicleta do que a pé, de automóvel ou transportes públicos. Por experiência própria em Faro, onde resido e me desloco diariamente de bicicleta, salvo raras excepções, é exactamente essa realidade que verifico. E quando há excepções é porque a cidade está ainda longe de estar optimizada para a circulação em bicicleta, como o está para o automóvel. Num mundo global com tantos problemas associados à utilização do automóvel, desde o consumo desenfreado dos combustíveis fósseis para alimentar a sua utilização, à supressão de espaço público para circulação e parqueamento, à sinistralidade com elevado numero de mortes e incapacitações físicas a longo termo, a OMS recomenda que se dê prioridade aos modos pedonal (andar a pé) e ciclavel como formas de deslocação no dia a dia. Um pouco por todo o mundo dito ocidental, o paradigma actual é o de reformular os modos de deslocação dos cidadãos por meio do redesenhar das cidades. E não precisamos de ir “lá fora” para encontrar exemplos, temo-los aqui em Portugal desde a capital, passando pelo centro/norte do país... Quando chegamos a sul... parece que... somos ainda árabes. Nem ainda Reino dos Algarves somos! Mas eu acredito que a barreira do Caldeirão conseguirá um dia ser transponível até de bicicleta!!! De há 2 anos a esta parte noto um aumento exponencial na utilização diária da bicicleta como meio de transporte na capital Algarvia. A frequência com que me cruzo com cidadãos de bicicleta em movimento na estrada, nos semáforos, nos parqueamentos espalhados pela cidade. A ocupação lotada de alguns parqueamentos são indicativo de que a adesão está a acontecer e a crescer . Mas não basta a vontade do cidadão residente e/ou turista (sim porque muitos são os casais e famílias de turistas que se deslocam no nosso Algarve de bicicleta de lés-a-lés ou simplesmente nas cidades), é preciso que haja condições efectivas para circulação em bicicleta. Por condições efectivas quero dizer segurança que se consegue através de diversas variáveis, entre as quais: -sinalética, -campanhas de informação, sensibilização e fiscalização em acordo com código da estrada por parte das autoridades, -vias e zonas adaptadas em determinadas áreas das cidades, -parqueamentos. Estas condições devem ser encontradas e promovidas pelos decisores locais, de preferência em diálogo com as populações. Confesso que foi com grande esperança que tomei conhecimento que há um ano atrás a Câmara Municipal de Faro colocou em consulta pública a FASE II do Plano de Mobilidade e Transportes onde os modos de deslocação suaves se encontravam enquadrados. Consulta na qual participei com mais 5 munícipes com uma proposta de plano ciclavel para a cidade de Faro, sendo que até hoje não nos chegou nenhum pedido de esclarecimento sobre a mesma, ou informação sobre se teria sido tida em consideração na FASE III, última do plano. Assim como até ao presente momento não consegui descortinar nenhuma evolução respeitante à criação de condições para a mobilidade em bicicleta na cidade desde então, devo referir que algumas obras estruturais têm sido feitas nas vias e espaço público e a circulação em bicicleta não tem sido objectivamente contemplada. Mas sendo portuguesa tenho sempre a esperança, porque ela é, segundo dizem a última a morrer. E para dar esperança à esperança, estão neste momento a decorrer candidaturas para autarquias, entidades públicas e privadas para investimento em projectos ligados à mobilidade sustentável no Algarve que tenham sido previamente enumeradas no Plano de Acção de Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS) . Sendo que o montante ascende aos 14 milhões de euros. Espero que o PMT em que o Município de Faro tanto investiu tempo e verbas tenha sido atempadamente incorporado no PAMUS da região do Algarve de forma que neste momento o departamento responsável no município esteja a trabalhar na candidatura a este financiamento cujo montante pode ser aplicado em : -construção de ciclovias ou vias pedonais, -melhoria da rede de interfaces de transportes urbanos colectivos, -melhoria de soluções de bilhética integrada, -planeamento de corredores urbanos de elevada utilização, -desenvolvimento e aquisição de equipamento para sistemas de gestão e informação para soluções inovadoras e experimentais de transportes -entre outras que promovam a mobilidade sustentável Que esta oportunidade não se perca, que não se falhem os prazos... curtos... que se invista em soluções fundamentais para alterar o paradigma actual com menor esforço financeiro! Que se envolvam os cidadãos, que se envolvam as escolas e a Universidade do Algarve e outras entidades nesta construção. Que não se permita por exemplo que entidades como a UALG que moldam uma cidade e uma região não entendam este paradigma como uma prioridade a abraçar ficando de fora de programas de incentivos financeiros como o recente U-Bike (2016-2018), onde 15 universidades e politécnicos de norte a sul do pais (excepto Algarve) se candidataram para prover a comunidade académica de bicicletas (nomeadamente eléctricas) e outros equipamentos necessários à correcta e adequada utilização das mesmas. https://www.u-bike.pt/ Com o planeamento do Polo Tecnológico e do Algarve Tech Hub na calha afigura-se-me incompreensível o investimento no programa U-Bike não ter sido uma prioridade estratégica para munir a comunidade que ali vai trabalhar e habitar de modos suaves e rápidos de deslocação até ao centro da cidade. Quando empresas de dimensões muito inferiores investem já em bicicletas, equipamentos e espaços para as guardar para usufruto dos seus trabalhadores e/ou colaboradores. Dando um exemplo concreto, a Turbine Kreuzberg, em Faro tem bicicletas no escritório para os trabalhadores que vêm de fora. Tenho esperança...porque tenho uma paixão...que dentro de uns anos sejamos 9 million bicycles em vez de NONE million bicycles neste Portugal, sobretudo neste lugar mais a Sul. Nota: Por opção, a autora não escreve aplicando o acordo ortográfico actualmente em vigor. Por Luís Coelho
Desde o início de 2018 que temos vindo a receber notícias menos boas no que toca ao número de turistas que visitam o Algarve. Uma peça recente da TVI dá bem conta desta realidade (ver aqui), dando nota da importante quebra de visitantes oriundos do Reino Unido, nosso principal mercado emissor turístico. Será esta uma mera flutuação conjuntural ou algo de estrutural? Por Gonçalo Duarte Gomes
O Bruno Inácio tem escrito, nas últimas semanas, sobre ambiente. Ele diz que não, mas temo que a bicheza “embientalista” se esteja a entranhar num coração anteriormente pétreo, vedado a qualquer sensibilidade esverdeada – honrosa excepção feita à elevada condição sportinguista que o caracteriza. Assumidamente novato nesta temática, ainda não domina por completo os meandros, o que lhe valeu, na semana passada, algumas críticas – mais por uma questão de forma do que propriamente de conteúdo, pareceu-me. Nesta semana, tenho eu algo a apontar-lhe, daí ter pedido à Joana para escrever na vez dela. Não um erro ou uma crítica, mas um lapso. É que propôs-se abordar investimentos que respeitam o ambiente, mas acabou a escrever sobre o Ombria Resort... Por Bruno Inácio No último texto que escrevi para o Lugar ao Sul entrei por campos pouco desbravados (no caso, até era sobre o desbravamento de campo) por mim no que respeita a opinião escrita e publicada. Uma alarvidade ambiental que ocorreu em Cacela Velha levou-me as palavras para o ambiente o que me valeu umas críticas valentes mas onde também me senti alinhado com um conjunto de vozes que, tendo muito mais peso do que eu para o fazerem, criticaram a acção ocorrida naquela que é uma das localidades mais bonitas do Algarve. Como escrevi, “a coisa passará rapidamente como de resto o tempo liquido que vivemos trata de fazer desaparecer.”. E assim foi. Resta-nos esperar que alguma investigação (será que existe!?) nos dê respostas a questões que ficaram no ar.
Não diria que lhe ganhei o gosto mas hoje volto ao ambiente. Porque existem bons exemplos que nos devem motivar a acreditar que será possível um novo paradigma de investimentos no que respeita a forma como olham para o meio ambiente que os rodeia não com a necessidade de desbravar para cimentar (no sentido do cimento da obra) mas numa lógica ponderada entre os habitats naturais, as densidades populacionais locais e o contexto económico das áreas onde se inserem. Falo-vos do Ombria Resort, no interior do concelho de Loulé, entre as freguesias de Querença e Tôr. Aquele que é provavelmente um dos projecto de investimento turístico mais escrutinados em termos ambientais no nosso país. A história é longa, vinte e muitos anos, e no início não trazia novidade: um grupo de investidores finlandeses quis na década de 90 fazer um resort num local onde ninguém queria fazer nada. Compraram terrenos, lançaram projectos e começaram os problemas. Uma autoestrada que depois de já estar construída ainda tinha um desenho que impedia o avançar do projecto; os medos (alguns justificados, sublinhe-se) de uma intervenção do género junto de um sítio classificado; umas lontras que por lá pouca gente tinha visto; morcegos que foram estudados, expondo a intimidade dos animais; tomilhos que não cresciam em mais lado nenhum… foram muitas as razões que levaram a queixas em diversos organismos nacionais e internacionais. Os promotores venceram umas, perderam outras e o projecto foi ficando permanentemente adiado. Honra seja feita a quem tanto combateu o projecto. Mas honra seja também feita, e muita, a quem nunca desistiu dele. Isto porque os anos de tantos avanços e recuos fizeram o projecto ser alterado de tal forma que hoje o que está em marcha é uma pequena parte do que estava inicialmente previsto e existe uma consciência ambiental, do meio que o rodeia que, especulando, diria que não existiria no seu início. E porque é que eu acredito que existiu efectivamente essa mudança? Não me parece que tenha sido uma epifania ambientalista que tenha varrido os investidores (que sejamos justos sempre a apregoaram). Julgo sim que hoje, a exigência do cliente, mais maduro, mais informado, obriga a que investimentos desta natureza tenham que seguir o caminho eco amigo para garantir uma efectiva e real prosperidade do seu negócio e assim garantir o retorno de investimento. Tudo isto porque nos últimos dias o investimento em causa anunciou um projecto pioneiro e ambicioso com vista a instalar um dos maiores sistemas de geotermia da península ibérica. Ou seja, através de um sistema devidamente testado e comprovado, são realizados um conjunto de perfurações no solo que através de um sistema de circuitos fechados, um fluido inócuo circula, transportando o calor e o frio para bombas de calor geotérmicas que permitem a redução das emissões de gases com efeito de estufa, permitindo um consumo mais sustentável. Estando certo que esse é um bom investimento para o empreendimento, não deixa igualmente de ser uma boa noticia pois vai contribuir para uma melhor eficiência energética dos espaços poupando assim o meio ambiente circundante. Adicionalmente a Direcção-Geral da Energia e Geologia olha para este projecto de forma interessada e acompanha-o por forma a verificar como será aplicado e os resultados que vai alcançar, admitindo até que possa utilizar esta experiência para moldar a legislação existente a este tipo de intervenções. Não coloco em causa que ainda vamos assistindo a algumas aberrações pela região fora. Não coloco em causa que existe ainda caminho a trilhar naquilo que é a relação entre os poderes públicos e os poderes privados. No entanto, não deixa de ser igualmente relevante que seja um concelho como o de Loulé, que tem sido pioneiro na implementação de uma estratégia de adaptação as alterações climáticas, a receber um investimento desta natureza. Que estes bons exemplos possam ser utilizados para criar e replicar em boas práticas, devidamente legisladas, controladas e auditadas. Também é assim que se constrói um destino turístico diferenciado. Por Gonçalo Duarte Gomes
O Algarve tem coisas do arco da velha. Insólitas, mesmo. Veja-se o exemplo da vergonha ocorrida em Cacela-Velha, que manchou a semana passada, ou tantos e tantos episódios degradantes de uma região que é incapaz de se respeitar a si própria, aceitando todos os atentados de cabeça em baixo, na esperança de que ao menos caiam algumas moedas na púcara das esmolas. Progresso, desenvolvimento, economia. Vários nomes para uma prostituição decadente dos valores ambientais e culturais da região. O panorama é por vezes tão degradante, que dá vontade de fugir. E, nesse capítulo, podemos contar com um nome: Luís Peres. Por Luís Coelho
A larga maioria dos Portugueses provavelmente ainda não visitou a Coreia do Sul (Coreia daqui para a frente). Eu próprio fazia parte deste grupo até à semana passada, algo que só mudou com a ajuda do programa Erasmus+. De facto, foi através de um acordo de mobilidade estabelecido no âmbito deste programa que tive a oportunidade de ir à Coreia, tendo passado pela cidade de Daejeon e visitado a capital do País, Seul. São três os aspectos essenciais que retiro da minha experiência e que agora partilho na convicção de que estes possam ser importantes para o nosso País. Esta parece ser a base de partida e a estrutura mental do legislador na maior parte das dinâmicas publicas. Pelo menos, esta é a noção com que muitas vezes fico, quer enquanto profissional como enquanto cidadão.
No caso dos quadros comunitários de apoio, especificamente, esta parece ser, recorrentemente, a linha orientadora dos principais despachos, regulamentos, orientações, guiões de apoio, formulários, e tantos outros documentos de suporte que configuram qualquer processo. Acresce o facto de usualmente, conseguirmos a nível nacional, confundir aquilo que a Comissão Europeia já complicou. Por Bruno Inácio Foto de Teresa Patrício retirada do Sul Informação Para os mais destemidos ou afoitos que possam pensar que vou escrever um texto com rasgos de erotismo, lamento desiludi-los. Mas, já que aqui estão, vão até ao fim não vá a minha imaginação de um verão-não-verão me levar para essas bandas.
Feito o primeiro ponto prévio quero deixar mais dois. Um sobre o receio que normalmente tenho de escrever sobre matérias sobre as quais não tenho muito conhecimento, correndo o risco de ser incorrecto ou injusto para alguém, seja uma pessoa ou uma organização. Ainda assim, vou arriscar, dado o simbolismo que o exemplo que vos quero falar tem na minha singela opinião. O terceiro e último ponto prévio, para dizer que o pelouro do ambiente é coisa que pouco visito e que de resto o Gonçalo Duarte Gomes representa (ás vezes com a minha total discordância) aqui no Lugar ao Sul, à sua singular maneira. Vou pois lhe passar uma finta e me antecipar naquele que podia ser tema de um próximo texto seu. Não tenho a sua capacidade mordaz de chamar bois aos bois mas a intenção também não é essa. Porque existem bois que se sentiriam ofendidos com alguma sugestão comparativa. Posto isto, vamos ao que vim. Ali para os lados do paraíso, ou como quem diz em Cacela Velha, alguém entendeu que seria boa ideia colocar a nu um terreno, em frente à Ria Formosa, desbravando vegetação como se não houve amanhã ou como se o Armagedão tivesse chegado hoje. Não sei, porque a noticia que li sobre o assunto não o dizia, o porque de tanta sofreguidão no desbaste da coisa. O proprietário lá terá as suas razões, e vamos presumir que serão validas – pelo menos para ele – porque mesmo não sendo, o ICNF – Instituto de Conservação da Natureza e Floresta, entendeu que era mesmo e lá terá licenciado o desbaste. Ao que chamaram alegremente de limpeza. E a dita limpeza terá sido realizada ao abrigo do famoso Sistema de Defesa da Floresta contra Incêndios. Famoso porque colocou o país todo em polvorosa (pólvora aqui não será o termo mais empático para usar neste tema) com a necessidade de limpar as matas como forma de prevenção de incêndios. Se existia um terreno com vegetação, se existe uma licença do ICNF, então o que está errado? Provavelmente legalmente, nada. A questão centra-se no entanto nesta nossa capacidade de podermos usar as leis ao belo proveito e não haver o discernimento institucional para se perceber que tal pode não ser uma boa ideia. As tantas até é, mas desconfio que não será. E porque tantas vezes é exactamente ao contrário ao que exponho que actua o ICNF. Com um rigidez tão inflexível, firme e hirta, que nem o Alexandrino quebra. O ICNF que é tão lesto a meter luzes vermelhas em tantos projetos e ideias, que é tão lesto e cego a proibir tanta coisa, devia ser igualmente lesto a olhar para o que autoriza com olhos de ver e não se escondendo atrás de legislação que dá jeito para muita coisa. Muita coisa boa certamente, mas depois também para disparates, que é o que na realidade este caso aparenta ser. A gravidade maior deste ato é acentuada porque o terreno em causa está em pleno Parque Natural da Ria Formosa e como tal sujeito a legislação especifica ditada pelo sistema nacional de áreas protegidas. Que é como quem diz, ali não dá para ficar nu. Por muito bonito que possa ser o que está por baixo – não é claramente o caso-, convém que se mantenha alguma cobertura de decoro. Porque o ato de ficar nu é muito diferente de naturalismo e de naturismo. Mas as vezes dá jeito confundir. A questão que se coloca é pois legítima por parte de outros que tenham terrenos nas mesmas condições, seja no Parque Natural da Ria Formosa, seja em qualquer outra área do território nacional sujeita a tais protecções: dá para dar um jeito e fazer igual? Não dá, pois não?. Ai onde entra a igualdade de tratamento que o ICNF invoca em tantas situações? Não entra. Fica a porta. A silly season esta a chegar e portanto a coisa passará rapidamente como de resto o tempo liquido que vivemos trata de fazer desaparecer. Nota final: desculpem, efectivamente a minha imaginação de um verão-não-verão não me levou para outras bandas. Hoje tenho o enorme prazer de contar com o contributo de uma convidada muito especial, que vem demonstrar que essa patranha governamental de que a exploração de hidrocarbonetos é que pode levar o País (e, dentro dele, a região do Algarve) para a frente... não é bem assim! Rita Gonçalves, uma Odemirense a viver em Faro há 25 anos, é técnica de Informação, Internacionalização e Inovação, e trabalha há 15 anos no empreendedorismo e associativismo Algarvio, desempenhando o cargo de directora executiva da ANJE Algarve. Tem a palavra. Gonçalo Duarte Gomes Por Rita Gonçalves
No seguimento de uma conversa entre amigos sobre empresas e investimento privado coloca-se a questão se há investidores no Algarve para as aéreas de startups, techs, empresas de energias renováveis, mar, etc., respondi que sim, claro que há, e há empresas fantásticas no Algarve a querer crescer e a precisar de investimento, e sim há investimento disponível. Então o que está a falhar? Enquanto alguns “gastam” a palavra empreendedorismo, há de facto quem não a gaste enquanto palavra, mas sim a renove e reinvente enquanto acção prática e directa no universo do crescimento empresarial algarvio. Na realização diária que é a aventura de se tornar empresário, existe muitas vezes o apoio de excelentes técnicos e direcções de entidades que primam por criar soluções e apoios a quem a eles recorre, toda uma rede de entidades privadas, públicas, associações e autarquias e universidade. Todos trabalham para este bem comum, que é potenciar o crescimento no Algarve, no entanto há obstáculos comuns a todos, e enquanto a região não se pensar como um todo, em vez de uma linda manta de retalhos, há progressos e desenvolvimentos que não são conseguidos. É crucial não só o pensamento crítico, mas sim acções que se traduzam em realidades concretas para toda a sociedade a Sul. Uma delas, já há muito tempo identificada, é a criação de um parque tecnológico. Um parque pensado não só para a realidade que temos, mas para a que pretendemos alcançar e pensado para crescer. É neste crescimento que se promove e realiza o investimento. No decorrer da amálgama de percalços e corridas de obstáculos que caracterizam a vida empresarial, há uma situação tendencialmente comum, que é a necessidade de investimento, quer seja na fase inicial, quer na fase de crescimento da empresa. Esta pode tomar as formas comuns, tal como o recurso à banca e a projectos co-financiados, no entanto cada vez mais surge a necessidade e procura de financiamento privado, que aporta não só o capital necessário ao desenvolvimento inicial do projecto, mas também o conhecimento e contactos de players no seu sector de actividade. Este contributo é muitas vezes fundamental numa startup, que se encontra numa fase de alto risco tecnológico, de produto e de mercado. Numa época em que no mundo do investimento tudo parece estar centrado em demandas para encontrar Unicórnios, Dragões e “Coelhos”, ou criá-los. Unicórnio é uma startup com um elevado potencial de crescimento disruptivo e que num espaço curto de tempo, atinge uma avaliação de mil milhões de dólares, dada por empresas de capital de risco ou por investidores. O termo Unicórnio veio de um artigo da capitalista de risco Aileen Lee em Novembro de 2013. Dragão é um termo que indica uma empresa em fase inicial que recorreu a fundos de investimento e consegue devolver aos investidores o valor igual ou superior ao investimento por estes efectuado. São mais raras que os unicórnios. RABBIT (coelho) é o acrónimo de Real-Actual-Business-Building-Interesting-Tech, que designa startups tecnológicas que trazem negócios reais, baseados num crescimento sustentado e inteligente. As RABBIT crescem a um ritmo lento, mas constante. E é nestas últimas que se está a verificar um grande interesse também por parte de investidores mais cautelosos pois o retorno não tende a ser incerto. Pode o Algarve albergar e gerar estes “seres mitológicos”? Sim, claro que sim. Pode e deve, mas fora destas demandas existem outras empresas que embora não estejam a escalar de forma mitológica, estão a crescer de forma sustentada e que procuram um investimento fora de bolhas especulativas. Não se deve dizer que está a falhar, captar investidores não é um procedimento compartimentado e estanque, há todo um caminho de passos estruturados que é necessário para alcançar o fim proposto. Não só o empresário deve de ter um plano de negócio bem estruturado, como saber defender uma apresentação/pitch surpreendente, de forma a captar a atenção e interesse do investidor, não descurando que toda esta relação estabelece-se inicialmente não só pelo interesse financeiro de ambas as partes mas também pela empatia, reciprocidade e relação de confiança, quer com o empresário quer com a equipa. Os técnicos facilitadores que operam nestas áreas directamente, agem quase como “casamenteiros”, trabalhando não só as dificuldades técnicas e legais de desenvolver uma parceria como esta, mas também os entraves de soft skills, que possam surgir neste relacionamento sério. A maior dificuldade é encontrar o investidor certo para o negócio certo, aquele que a área lhe interesse e que possa aportar para a empresa não só a componente monetária mas também know how, contactos e promoção, entre outros. Por outro lado, há sempre o obstáculo da desconfiança por parte do empresário, que acha que o investidor lhe pretende tomar a empresa que ele construiu. Aqui compete desmistificar esta questão, já que um investidor (por norma) não pretende ser sócio maioritário nem adquirir a empresa. Quer investir, apoiar e, ao ter o seu retorno, sair. Para os empresários/empreendedores (Algarve, Baixo Alentejo e sul de Espanha) que pretendam investimento, e também para os investidores e Business Angels que procurem novos desafios, têm disponível o ESPOBAN - Rede de Business Angels Espanha – Portugal, que abriu a primeira convocatória para a capacitação de empreendedores e investidores da região do Algarve interessados em participar num programa de formação, consultoria e elaboração de planos de negócio de projectos empreendedores. Esta convocatória encontra-se aberta até dia 15 de Julho e permitirá aos participantes, mais tarde, fazer parte do Fórum de Investimento. É um projecto que visa facilitar o acesso das empresas e dos empreendedores das regiões do Algarve, Alentejo e Andaluzia ao investimento privado. Mais informação aqui: http://espoban.eu. Para um contacto directo com investidores, existem no Algarve Entidades Veículo de Business Angels, cuja actividade de investimento nas PME, equiparável à dos operadores de capital de risco, tem co-financiamento do FC&QC. Em áreas sectoriais tais como: Biotecnologia, Economia do Mar, Ambiente (Indústria, Serviços e Gestão), Eficiência Energética, Ambiente (Indústria, Serviços e Gestão), Indústria 4.0, entre outros. Contactos através do IAPMEI. Com ou sem seres mitológicos (por enquanto) o Algarve tem as condições positivas e vontades para melhorar, quer na captação de investidores privados, quer na promoção e desenvolvimento de empresas de especialização tecnológica e outras que tragam valor acrescentado e uma maior diversificação da economia regional. Por Luís Coelho
No passado dia 23 de Junho tive a oportunidade de assistir a uma palestra proferida pelo Dr. Horta Osório, actual Presidente do Lloyds Banking Group. Na sua intervenção, o famoso banqueiro destacou os três principais desafios económicos do nosso País: o peso da dívida, o volume de crédito malparado e o desafio da demografia. A minha nota de hoje foca o último dos problemas elencados pelo Dr. Horta Osório. De facto, bem ou mal, os temas da dívida e do malparado são frequentemente aflorados pelos media nacionais. O mesmo já não se passa com a questão da demografia, sendo que a história se pode resumir numa frase: Portugal está a envelhecer demasiado rápido. Para tal contribuem dois factores chave: o aumento considerável da esperança média de vida e a fortíssima diminuição da taxa de fecundidade. O Lugar ao Sul conta hoje com a opinião de mais um convidado especial. A convite da Sara Luz, hoje, no Lugar ao Sul, escreve Sérgio Menezes Pina. É médico no Centro Hospitalar Universitário do Algarve, E.P.E. (CHUA), Responsável Médico da Formação da VMER de Faro e Albufeira do CHUA e Editor da Revista LifeSaving. Múltiplos factores justificam que o Algarve apresente um crescimento sustentado, com um contributo para a riqueza nacional sempre acima da média nos últimos anos, entre os quais, as estratégias inovadoras de projecção e dinamização do turismo regional, com o foco sobretudo na qualidade e na segurança, uma das principais. Por mais idílicas que sejam as praias, não se vende a confiança no território sem garantir um sistema de saúde sólido e competente, com cabal capacidade de resposta.
A infraestrutura de saúde estabelecida está desproporcionada face às reais necessidades de uma população que triplica sazonalmente e cuja carga de trabalho sobre os profissionais é cada vez maior. A exigência sobre médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e assistentes operacionais é avassaladora e novos especialistas são difíceis de cativar para o Centro Hospitalar Universitário do Algarve, para onde os concursos ficam cronicamente com vagas por preencher. Só a promoção de projectos ousados e inovadores, como a Revista LifeSaving, pode ajudar a mudar esta tendência. A Revista LifeSaving é uma revista científica promovida pela equipa das Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER) de Faro e Albufeira do Centro Hospitalar Universitário do Algarve, com atenção particular sobre o doente crítico no pré-hospitalar. A VMER de Faro e Albufeira em actividade há cerca de 20 anos é constituída por profissionais experientes no contexto extra-hospitalar e cedo definiu a formação contínua e actualização permanente como uma prioridade, de forma a garantir à população do Algarve um serviço de mais elevada competência. A equipa mobilizou-se no sentido de sintetizar a informação dispersa em múltiplas fontes, na elaboração de protocolos de actuação e na produção de artigos sobre temáticas muitas vezes não consensuais na literatura. Os profissionais deparam-se com uma escassez marcante, a nível nacional, de fontes dedicadas exclusivamente a esta área do conhecimento médico. O material produzido foi optimizado de forma a ser utilizado como ferramenta útil nos cenários enfrentados pelas equipas no terreno. Cedo se tornou manifesto que a partilha deste material poderia beneficiar os operacionais de outros centros o que motivou a criação da Newsletter LifeSaving, cuja primeira edição foi lançada a 5 de Agosto de 2016, instalando-se como uma publicação trimestral, globalizante, transversal a todos os profissionais da emergência pré-hospitalar. Foram lançados 4 números da Newsletter entre Agosto de 2016 e Maio de 2017, extraordinariamente recebidos pela crítica nacional, o que se revestiu num aumento exponencial de visualizações e partilhas de número para número, vindo a colmatar uma falha há muito sentida no panorama científico português. Os números lançados sob orientação do Coordenador Médico da VMER e Editor-chefe da Revista LifeSaving, Dr. Bruno Santos, marcaram-se por um aumento constante da qualidade, não só em termos gráficos, mas também na relevância dos artigos publicados, levando o Centro Hospitalar Universitário do Algarve a apostar na sua divulgação e registo da marca. Desde a comemoração do primeiro aniversário da LifeSaving, que coincidiu com o seu estabelecimento como revista científica, em Agosto de 2017, publicaram-se 4 números, o último dos quais em Maio de 2018. O carácter irreverente da Revista LifeSaving é visível, não só pela opção de uma publicação exclusivamente virtual, facilmente acessível e partilhável, mas fundamentalmente por cativar a atenção da comunidade Algarvia, agregando profissionais e população civil numa discussão conjunta sobre medidas de segurança e prevenção. Para tal, rúbricas dedicadas a leigos, eventos trimestrais de apresentação da revista com workshops práticos abertos ao público na FNAC do Fórum Algarve, em Faro, e seminários teórico-práticos como o decorrido na Feira Internacional de Protecção Civil e Socorro - Algarsafe'18, em Portimão, são algumas das notas diferenciadoras de um projecto com cada vez mais reconhecimento público. A capacidade de ser uma publicação técnica na área da medicina de emergência e urgência e, simultaneamente, ser um ponto de convergência da sociedade Algarvia está fortemente embutido no ADN da LifeSaving que se tem assumido como uma estrutura diferenciadora no Centro Hospitalar Universitário do Algarve, espelhando a excelência de uma equipa que é cada vez mais uma referência na emergência a nível nacional. A Revista LifeSaving pode ser acompanhada usando as seguintes plataformas: http://www.chualgarve.min-saude.pt/lifesaving/ https://issuu.com/lifesaving https://www.facebook.com/revistalifesaving/ Por Gonçalo Duarte Gomes
A laranja do Algarve é já quase mítica. Doce, sumarenta, refrescante, apelativa. De tal forma que, tornando-se a estrangeira de maior sucesso, é já praticamente indissociável da região. Sim, porque, e adaptando um curioso slogan turístico, embora seja de cá, não nasceu por aqui. Por isso coloco a questão: antes da cítrica condição, o que vinha de trás? E já agora, o que aguarda adiante? O Algarve é de facto uma metafórica laranja? E daí, partirá para um figurativo guacamole? Ou é literalmente outra coisa? Por Luísa Salazar.
Welcome, Welcome, Welkom, Bienvenue, Bienvenidos, Benvenuto, добро пожаловать, 歡迎 , ようこそ ...8/6/2018 Por Joana Cabrita Martins Et voilàààà !!! Welcome, Welcome, Welkom, Bienvenue, Bienvenidos, Benvenuto, добро пожаловать, 歡迎 , ようこそ ... Chegou Junho e com ele chega a época da sardinha assada, do figo, dos Santos Populares e a mais importante... A época dos turistas!!! Ilustrações - Inês Montalvão Prazeres, em Algarve quem és tu? E pese embora nós consigamos ter e preservar sardinhas, figos e até Santos todo o ano neste nosso Algarve desde tempos longínquos, os turistas... Os turistas foram espécie rara de Setembro a Junho até há bem poucos anos. Andamos há largos anos a tentar desenvolver técnicas de preservação, como fizemos para a sardinha com a salga e a seca ou a conserva enlatada, com a seca e torra dos figos, com as capelas e as igrejas para os Santos e Santinhos, mas os turistas, ai os turistas... Salgados, enlatados e torrados são de facto técnicas de preservação que nos pareceram ser indicadas tanto para o peixe, como para as frutas, e que na verdade também funcionam na perfeição com os turistas. No entanto é só mesmo no Verão. Começou então a tentar-se descobrir e desenvolver novas técnicas de preservação dos elementos da espécie migratória de turistas que todos os anos por esta época, vindos um pouco de todo o mundo incluindo do resto do pais, arribam este Lugar ao Sul. E chegou-se recentemente a uma que me parece bastante interessante e com um enorme potencial. O Turismo criativo. ‘‘Tourism which offers visitors the opportunity to develop their creative potential through active participation in courses and learning experiences, which are characteristic of the holiday destination where they are taken.” Crispin Raymond and Greg Richards, 2000 Este conceito que nasceu há uns anos já se encontra em fase de consolidação em várias regiões do mundo. Em Portugal está-se a iniciar esta nova técnica um pouco por todo o pais, nomeadamente a Sul. No Algarve o Turismo Criativo começou a desenvolver-se na cidade/conselho de Loulé e como qualquer boa técnica, está a expandir-se, a ser apropriada e posta em desenvolvimento noutras cidades do litoral ao interior. Desde Municípios, a empresas, passando por associações locais, vários são os projectos que no Algarve começam a ser cozinhados com o selo do Turismo Criativo. Alguns deles já demonstram que este método de conservação e preservação de Turistas é eficaz, provando que é possível atrair e manter na região esta espécie migratória durante todo o ano com actividades ligadas ao património material e imaterial Algarvio, como, a título de exemplo, a gastronomia, arquitectura, história, artes tradicionais, natureza… Assim contrariando a tendência que se traduziu na pratica de décadas. Neste contexto realizou-se nos últimos 3 dias uma conferência internacional dedicada ao Turismo Criativo, num Lugar a Norte, na cidade de Braga (cidade criativa da Unesco). O objectivo deste encontro foi o de partilhar experiências sobre o potencial deste novo método, e criar redes e sinergias a nível nacional. Tendo estado presentes projectos emergentes de Norte a Sul do pais, destaco a presença de 10 projectos de Turismo Criativo em desenvolvimento a Sul (Algarve) que cobrem quase toda a área geográfica do litoral ao barrocal, do barlavento ao sotavento, e cuja criatividade, inovação e ambição auguram um novo turismo, mais sustentável, equilibrado e identitário. Dentro de um ano a conferencia realizar-se-à neste lugar ao Sul (Faro) e espero que até lá esta nova técnica esteja mais do que testada e com resultados comprovados em época baixa... Até lá desejo a todos os Algarvios e Turistas uma excelente época de salga, enlatamento e torranço!!! Nota: Por opção, a autora não escreve aplicando o acordo ortográfico actualmente em vigor. Por Sara Luz
Quando o “a favor” e o “contra” a legalização da eutanásia se encontram num bar sabemos o que sucede: o primeiro teima que o segundo está errado, e o inverso também acontece. Isto, claro, durante horas de palanfrório. O “a favor” defende a legalização da eutanásia com base no direito à liberdade individual. O “contra”, por sua vez, opõe-se à supremacia do direito à liberdade individual em detrimento do direito à vida, juntando às suas convicções pessoais outras de ordem deontológica e/ou religiosa. No final, sabemos que o nível de profundidade da discussão não irá muito além, mas também pouco importa ou não estivessem eles simplesmente à conversa num bar. Outra coisa seria de esperar quando o “favor” e o “contra” a legalização da eutanásia se encontram no parlamento. Dar uso à voz do povo para legislar à pressa sobre uma matéria tão fraturante, que nem sequer constava nos programas eleitorais dos partidos (à exceção do PAN), é no mínimo ultrajante. Depois, à boa moda da política portuguesa, não faltou espaço para o voto servir de arremesso político o que por si só é repugnante. Para começar deveriam ter sido realizadas/incentivadas discussões prévias no seio da sociedade civil com o objetivo de se refletir profundamente sobre a eutanásia, o que poderia ter ajudado a perceber o entendimento existente sobre o assunto, a desmistificar constructos sociais e a percecionar se essa seria uma escolha livre de condicionamentos ou dependente de fatores, como sejam a distanásia que se pratica nos serviços de saúde, a falta de acesso a cuidados de saúde em tempo útil, em segurança e com qualidade, a falta de apoio social e/ou familiar, entre tantos outros. O debate poderia ser, igualmente, facilitador da compreensão de que em matérias desta natureza e complexidade importa legislar independentemente do número de pessoas que possam beneficiar da mesma. Primeiro, porque a eutanásia a ser realizada é com base numa escolha livre, individual e esclarecida. Segundo, porque aos profissionais de saúde também lhes assiste o direito à liberdade em praticar ou não a eutanásia, podendo invocar objeção de consciência se assim o entenderem. Depois, quem sabe, uma campanha de grande alcance sobre o testamento vital, talvez com o mesmo vigor que a do consumo de sal/açúcar ou a do combate aos incêndios, pois são apenas cerca de 20 a 30.000 os portugueses que até ao momento subscreveram o documento. Por último, e porque agora de repente as sugestões já parecem ser muitas, referir que numa próxima seria prudente não desvalorizar a rampa deslizante, nem tampouco fazer disso um bicho papão, isto porque importa mais consciencializar do que manipular. Talvez aqui relembrar que, por exemplo, no caso do aborto ele é hoje utilizado como método contracetivo, extrapolando as circunstâncias para as quais se previu a despenalização. Portanto, sim, importa refletir, questionar, informar, …, e consciencializar antes de legislar! “Brilhante, brilhante” é no nosso país verificar-se exatamente o oposto e, portanto, não é de admirar o número consistente de manifestos “contra”. Interessa agora saber se existirá espaço para o debate até que a legalização da eutanásia torne a fazer parte da agenda do dia. Sim, porque esta é matéria que mais tarde ou mais cedo irá voltar e o marasmo pós-votação é demasiado notório e perturbante para quem acompanhou os acontecimentos da última semana. Por cá a sul, continuaremos a fazer o nosso papel: “a refletir, discutir e ser mais plurais do que consensuais!” (http://www.lugaraosul.pt/entrada/lugar-ao-sul-na-sic-noticias-para-falar-sobre-eutanasia). Por Gonçalo Duarte Gomes
Na sequência do alerta lançado recentemente por Miguel Freitas, Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, relativamente ao risco de incêndios severos e intensos que incide sobre o Algarve, o Primeiro-Ministro não demorou a tomar medidas. Vai daí, hoje mesmo encontra-se no Algarve. Para dar abraços. A árvores. Abraços verdes. Com criancinhas. E depois ir ver carros de bombeiros e helicópteros e muitas outras maravilhas, neste alegre nervoso miudinho que antecede a foliona época de fogos! Esperemos apenas que, nestas andanças, não tenha que ir pela EN125, ou que o almoço não lhe caia mal e tenha que recorrer aos equipamentos de saúde algarvios… Hoje foi um dia especial para o Lugar ao Sul! Na sequência de um amável convite da Delegação da SIC no Algarve, fomos até à baixa de Faro materializar a nossa estreia em televisão e logo para discorrer sobre um tema tão fraturante como a eutanásia. Partilhamos o resultado desta primeira incursão pela TV no vídeo abaixo, pedindo desde já desculpas pela qualidade da imagem (e, também dos testemunhos =)). Gostaríamos de agradecer novamente o convite que nos foi endereçado, ficando na expectativa de uma nova oportunidade para contribuir para o debate a partir de outras plataformas que não apenas a digital. Por Joana Cabrita Martins No início do presente mês foi divulgado um estudo da OMS (Organização Mundial de Saúde) que revela as cidades Portuguesas que ultrapassam os níveis de poluição máximo recomendado de partículas finas inaláveis*. Notícia do DN É no entanto interessante constatar que a legislação Europeia e consequentemente a Portuguesa não se regem pelos mesmos valores, colocando-os bem acima dos valores recomendados pela OMS. Do limite máximo de 10 microgramas por metro cúbico de ar recomendado pela OMS as legislações europeias estabelecem os 25 microgramas por metro cúbico de ar como o seu limite máximo. Sem ser necessário conjecturar sobre teorias da conspiração, esta tão grande discrepância de mais 150% é mais que suficiente para pressupor uma série de razões de cariz económico e financeiro que estariam afectas a uma abrupta quebra nos seus lucros/negócios, algo que seria calamitoso para uma estruturada sociedade baseada nos mais altos valores do consumo, caso se regulasse pelos números preconizados pela OMS. Uma vez mais valores capitalistas se sobrepõem ao bem estar e saúde do ser humano. À parte esta curiosidade, e visto este estudo por cá não ter tido grande divulgação e/ou impacto, a mim pessoalmente preocupa-me constatar que 2 das cidades que se encontram acima dos valores, segundo a OMS, são Algarvias, a saber, Albufeira e Faro. Preocupa-me perceber que a diferença de valores entre ambas e a cidade de Lisboa é de apenas 1 micrograma por metro cúbico de ar, de 12 microgramas registados em Albufeira e Faro para 13 microgramas registados em Lisboa. Isto porque comparando as dimensões da capital Portuguesa com as cidades algarvias (ainda que uma delas seja também capital) seja em termos de área, seja em termos de população residente e visitante, e consequentes meios e recursos utilizados por estes, os valores deveriam apresentar uma maior amplitude de diferenciação com valores significativamente mais baixos para as cidades de Albufeira e Faro. Debruçando-me especificamente sobre Faro, capital da região, e minha “casa”, uma cidade de pequenas dimensões inserida em pleno Parque Natural da Ria Formosa apresenta-se incompreensível que os níveis de poluição do ar se encontrem em valores superiores ao máximo estabelecido pela OMS para preservar a qualidade de vida e saúde dos seus cidadãos residentes e visitantes. No entanto se fizer uma breve análise por alto da cidade, consigo entender que estes valores sejam reais e facilmente atingíveis numa cidade em que a utilização do automóvel per capita é elevadíssima, e em que a maioria da população não prescinde do mesmo para fazer deslocações de 500m de casa para o trabalho e vice-versa, em que o espaço público é invadido e usurpado pelos carros, onde os passeios deixam de ter a função de servir os utilizadores pedonais e se tornam parques de estacionamento legais aos olhos de quem governa e fiscaliza. Um aeroporto (tb ele em pleno Parque Natural da Ria Formosa), em que em mais de metade do ano o tráfego aéreo que sobrevoa a cidade é bastante intenso sem ser preciso grande esforço para se contabilizar. Basta estar no centro da cidade para se ser interrompido periodicamente pelo sobrevoar dos pássaros gigantes que ao chilrear nos fazem calar. E que do alto da sua passagem vão contribuindo, e não é com esmolas, para o aumento das micropartículas. Se juntarmos a este factores humanos os naturais e/ou climatéricos decorrentes da nossa posição numa zona geográfica de clima temperado a tender para o seco, com predominância para periodos de secas estremas e aumento significativo das temperaturas, temos toda uma conjuntura mais que favorável para que os valores apresentados este mês não só tenham tendência a manter-se como mais que provavelmente a aumentar. Se relativamente aos factores naturais, directamente, pouco poderemos fazer para alterar a situação, o mesmo não é aplicável aos factores humanos, civilizacionais. Os decisores locais, regionais e nacionais deveriam seriamente debruçar-se sobre o tema e procurar pôr em pratica leis e planos estratégicos concertados que promovam alterações significativas nas cidades e nos estilos de vida dos seus habitantes. E se poderá, porventura, existir algo que seja mais moroso ou arriscado de preconizar como reduzir o numero de viaturas nas cidades, ou restringir o acesso das mesmas a determinadas áreas da mesma, há por outro lado acções práticas bem simples e efectivas que fazem a diferença. Cuidar, preservar e aumentar os espaços verdes das cidades é uma delas. Na capital do Algarve durante anos os poucos espaços públicos verdes existentes, foram completamente negligenciados, o que deveria per si ser considerado um acto criminoso quando se fala de assuntos como este de saúde pública. Uma simples planta multiplicada por vários canteiros e uma simples árvore de porte médio grande multiplicada por outros tantos, em cada rua, em cada praça, poderia fazer a diferença na purificação do ar da cidade. Em Faro ao longo dos últimos anos foram abandonados canteiros, foram amputadas e deixadas morrer árvores e flores, foram calcetados canteiros... foi-se desertificando a cidade e deixando aumentar a poluição do ar. Foi com grande felicidade e alguma incredulidade que na semana passada e esta semana vi serem descalcetados antigos canteiros do centro da cidade e ....plantadas árvores!!! Em duas áreas vizinhas, outrora oásis de palmeiras, posteriormente desertificadas sugiram nestes últimos dias novas árvores. Será um sinal de mudança nas estratégias e entendimento dos decisores? Vou manter a esperança. Que pode ser que se venha a confirmar, caso completem o trabalho de descalcetar os restantes canteiros do outro lado da rua (que inexplicavelmente não tiveram direito a árvores). E aquele cujo corpo morto de uma outrora palmeira jaz ainda solitário no meio de novas espécies... Sim... Sim quero acreditar que foi só o começo e que o trabalho será terminado, e que por traz deste começo esteja uma estratégia bem delineada para tornar Faro mais verde, mais fresca, e MENOS POLUÍDA. *”Indicadores da Qualidade do ArO nível da poluição do ar é medido pela quantificação das principais substâncias poluentes presentes neste ar, os chamados Indicadores da Qualidade do Ar. Considera-se poluente qualquer substância presente no ar e que, pela sua concentração, possa torna-lo impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde, inconveniente ao bem estar público, danoso aos materiais, à fauna e à flora ou prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade.
Estes Indicadores representam materiais sólidos e líquidos em suspensão na atmosfera, como poeira, pó e fuligem. O tamanho das partículas é o critério utilizado para a classificação destes materiais. Partículas mais grossas ficam retidas no nariz e na garganta, provocando incômodo e irritação, além de facilitar que doenças como gripe se instalem no organismo. Poeiras mais finas podem causar danos ao aparelho respiratório e levar outros poluentes para os alvéolos pulmonares, provocando efeitos crônicos como doenças respiratórias, cardíacas e câncer. As pessoas que permanecem em locais muito poluído por partículas inaláveis, são mais vulneráveis a doenças de forma geral.” meioambiente.pr.gov.br “As partículas presentes na atmosfera são provenientes de fontes naturais, como vulcões, aerossóis marinhos e a ação do vento sobre o solo, e de outras de caráter antropogênico, tais como a queima de combustíveis fósseis, processos industriais e tráfego rodoviário. As partículas presentes na atmosfera são normalmente designadas pelo método através do qual são medidas. Nos últimos anos foi dedicada especial atenção aos efeitos das partículas e portanto as medições tradicionais de Partículas Totais em Suspensão (PTS) têm vindo a ser substituídas pela medição da fração PM10 (partículas com um diâmetro 5 aerodinâmico inferior a 10 µm), dado serem estas as partículas que representam um maior risco para a saúde(Elsom,1989;Seinfeld,1986). O material particulado ou aerossol atmosférico é constituído pelas partículas sólidas e líquidas em suspensão na atmosfera. As partículas inaláveis(PM10) são definidas como partículas com diâmetro aerodinâmico menor que 10 µm, estas dividem-se em partículas grossas inaláveis com diâmetro aerodinâmico entre 2 e 10 µm e as partículas finas com diâmetro aerodinâmico menor que 2 µm(Seinfeld,1986). Estudos recentes têm demonstrado a existência de correlações entre as variações dos níveis diários de PM10, produzidas por diversas fontes e os efeitos nocivos à saúde humana. Em muitas cidades as PM10 são consideradas como um dos poluentes que causam maiores preocupações, estando a sua ação relacionada com todos os tipos de problemas de saúde, desde a irritação nasal, tosse, até à bronquite, asma e mesmo a morte(Cerqueira,2000). A fração mais fina das PM10 ( 0,5µm a 1,0µm) pode ter efeitos muito grave para a saúde, uma vez que este tipo de partícula pode penetrar profundamente nos pulmões e atingir os alvéolos pulmonares, provocando dificuldades respiratórias e por vezes danos permanentes. As partículas desta dimensão penetram facilmente no interior dos edifícios (Elsom,1989;Seinfeld,1986). Partículas com diâmetro inferior a 1 µm, podem permanecer em suspensão na atmosfera durante semanas e serem transportadas ao longo de centenas ou milhares de quilômetros, enquanto que partículas maiores que 2,5 µm, são removidas no período de algumas horas por precipitação e sedimentação. As dimensões das partículas finas, principalmente das partículas emitidas pelos veículos a diesel, são da ordem de grandeza do comprimento de onda da luz visível podendo, por este motivo, reduzir sensivelmente a visibilidade. A capacidade do material particulado em aumentar os efeitos fisiológicos dos gases presentes no ar é um dos aspectos mais importantes a ser considerado. Os efeitos de uma mistura de material particulado e dióxido de enxofre, por exemplo, são mais acentuados do que os provocados na presença individualizada de cada um deles. Além disso, pequenas partículas podem absorver o dióxido de enxofre do ar e, com água (umidade do ar) formam partículas contendo ácido, o que irrita o sistema respiratório e pode danificar as células que protegem o sistema.” Estudo da Dispersão de Poluentes para fontes Industriais - Universidade Federal Rio Grande do Sul Por Bruno Inácio A novela da organização do território ao nível das freguesias é como aquelas telenovelas mexicanas: o drama nunca mais tem fim e são milhares de episódios. Nunca se sabe bem como vai acabar. Ou se vai acabar.
Já aqui escrevi sobre este tema em Novembro de 2016 (pode ler aqui: E as freguesias? (xiuuu, não falem nisso pá! leitura que recomendo para contextualizar toda esta questão). Na altura procurei fazer um historial do processo e tecer algumas considerações que basicamente desaguavam numa tremenda falta de consideração de alguns políticos pelas populações, a quem impingiram promessas populistas e demagógicas. Chegamos a Maio de 2018 e o cenário não mudou muito. Em Janeiro deste ano, no congresso da Associação Nacional de Freguesias, o Ministro da Administração Interna, voltou a puxar das promessas para cima da mesa: “que o Governo vai entregar “neste semestre” uma proposta ao parlamento para a reorganização territorial das freguesias, que permita a criação ou modificação destas autarquias locais, para um “regresso à normalidade democrática”. “Aquilo que iremos fazer é uma lei-quadro que colocará cada coisa no seu plano e que dará a voz aos autarcas. É essa proposta que, neste semestre, apresentaremos na Assembleia da República para que se volte nesta matéria à normalidade democrática, isto é regras estáveis que definam como é que organizamos o território” Nada de muito concreto mas suficientemente claro para ganhar mais seis meses desta discussão. Pois bem, os seis meses estão a terminar e é tempo do governo mostrar trabalho e por mãos à obra. O Partido Socialista gerou muitas expectativas sobre este tema nas eleições legislativas de 2015. A promessa de ter a questão resolvida para as autárquicas de 2017 falhou como de resto o ministro assumiu. Resta agora saber se irá cumpri a promessa de, passo a citar: “este ano (2018), que é o primeiro ano de mandato autárquico, dar passos significativos que depois serão desenvolvidos nos próximos anos”. Neste debate não tem faltado e continuará a não faltará quem procure tapar o sol com a peneira procurando contaminar o discurso público e político com a acusação simplista de que foram os promotores da agregação das freguesias que agora estão a defender a reversão da medida. Como se de resto isso fosse relevante para o futuro da questão. Servirá certamente para avaliação política dos eleitores mas não servirá para desculpar uma eventualmente falha da palavra dada. É caso pois, para colocar a questão: será esta uma palavra honrada? Espero, sinceramente, que sim. Aguardemos as cenas dos próximos capítulo. |
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