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Aquela coisa do património, ou lá o que é…

14/9/2018

2 Comentários

 
Por Gonçalo Duarte Gomes

O escritor francês Olivier Clerc formalizou em tempos uma fábula científica que nos conta a história de uma rã num recipiente com água que, feliz e contente, não se apercebeu que esse banho estava a ser aquecido aos poucos, uma vez que o seu organismo desencadeou um processo inconsciente de ajuste gradual, regulando a sua temperatura corporal.

No momento em que a água atingiu o ponto de ebulição, o organismo da rã deixou de conseguir adaptar-se à temperatura, e alertou o seu consciente, lançando a ideia de que talvez não fosse má altura para saltar fora do jacuzzi.

No entanto, não sobravam já à rã forças para saltar, uma vez que tinha despendido toda a sua energia no processo de adaptação térmica. Assim, o batráquio viu-se condenado a morrer. Cozido.

Esta fábula é alegadamente baseada numa experiência da Física, que postula que se a velocidade de aquecimento da temperatura da água for inferior a 0,02ºC/minuto, a rã fica quieta e morre ao final da cocção. Em presença de velocidades de aquecimento superiores, a rã salta e escapa.

A filosofia debruça-se sobre esta questão de uma outra forma, colocando uma pergunta chata: foi efectivamente a água a ferver que matou a rã, ou foi a sua incapacidade de alertar o consciente, em tempo útil para tomar a decisão de saltar e salvar-se?

Assim estamos nós no processo de degradação patrimonial que o Algarve atravessa. O que nos está a corroer a identidade: quem destrói activamenteo seu substrato, ou a nossa incapacidade de tomada de consciência e de iniciativa para a oposição a tal atentado?
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No passado dia 2 de Setembro, o incêndio que reduziu a cinzas o Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, desencadeou um lamento colectivo, principalmente na comunidade lusófona, pela irreparável perda, não apenas para aquele País sul-americano, mas para todos os outros que, em África, na Europa e na Ásia são ligados pelos Descobrimentos.

Aqui no feudo viu-se alguma soberba, nomeadamente a de quem olhou para este caso, pensando que por cá tal seria impossível. Mesmo quando o desinvestimento – ou, no mínimo, sub-investimento – na Cultura é cada vez mais um padrão cultural português.

Não sei se ao ponto de deixar um museu desta envergadura chegar ao ponto de colapso, pese embora o aviso lançado, há pouco mais de 2 anos, por António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga, para a possibilidade de ocorrer "uma calamidade no museu" por se andar a "brincar ao património". Mas seguramente ao nível conceptual e político, e independentemente dos partidos no poder, onde apenas se operam diferenças de pormenor. A Cultura acaba sempre por vogar numa certa deriva, que depende mais do brilhantismo (ou falta dele) das pessoas escolhidas para desempenho de funções decisórias do que de uma estratégia global.
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Os nossos decisores, seja pelas acções que tomam ou, inversamente, pela omissão a que se remetem, padecem de um problema que já Aristóteles questionava: quem poderá pensar sobre as cores, se é cego de nascença?
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Mafalda © Quino

Dessa forma, o grande problema que nos afecta é a falta de sensibilidade e consciência de muitos responsáveis para o valor histórico, patrimonial e identitário a seu cargo. Naturalmente falam dessa importância, mas apenas de forma a não falhar nenhum item do prontuário politicamente correcto. Para lá das palavras, não existe uma interiorização ou inscrição desses valores nas suas atitudes, comportamentos ou decisões.

Quem duvide, veja a razia no edificado com significado patrimonial (erudito ou vernacular, simbólico, histórico ou sentimental, classificado ou não – mera casualidade burocrática, secundária para quem reconhece o valor per se) dos nossos núcleos urbanos.

Bem recente, temos presente a demolição da antiga sede do Clube Desportivo “Os Olhanenses”, na Av. da República em Olhão, para dar lugar a um inexpressivo edifício de 5 pisos.

Mas já antes, no ano passado, também em Olhão, havia sido a vez do Grémio Olhanense ser obliterado, entre outros exemplos. Em Faro, segue imparável a destruição de imóveis identitários ou urbanisticamente relevantes – muitas vezes precisamente pela sua reduzida dimensão e expressão, proporcionando memória, desafogo e escala humana – para dar lugar a volumes duvidosos. Em São Brás de Alportel, é a própria Câmara que ordena demolições parciais de imóveis do Séc. XIX, para instalar estaleiros de obras públicas, e promove ou pactua com o abastardamento da memória inscrita no tecido urbano e edificado, tudo em nome da “imagem”.

E a lista poderia continuar por outras geografias.

Modernidade oblige, dizem-nos sempre, como se uma modernidade digna desse nome pudesse sê-lo sem respeitar a antiguidade.

Junte-se a isso a vertigem para que nos empurram os neo-flautistas de Hamelin, de que há que criar espaços para empilhar corpos e enclausurar almas, mesmo que a demografia o negue, excepto nos censos dos institutos de estatística do Booking.com ou do Airbnb.

Note-se ainda que, e isto é sabido, as camarárias almas se condoem mais facilmente com as dores de bolso de um qualquer pato-bravo do que com a lancinante amputação e castração da memória colectiva.

Mantenho aqui, como noutros contextos, que não compete aos particulares pagar do seu bolso o cumprimento e salvaguarda do interesse público, para lá da sua condição de cidadãos e contribuintes, ou salvo alguma medida de compensação a que estejam expressamente obrigados. Mas também não lhes pode ser permitido o calculista exercício de abandono para legitimação a priori do que a posteriori se consuma como irrecuperável ainda que lamentável [pausa para queda da lágrima de crocodilo] degradação.

É à Administração Pública que compete administrar. Encaminhando a expansão e a modernidade para os espaços adequados para o efeito, salvaguardando o que deve ser salvaguardado e preservando, noutros espaços que são de outros tempos, a memória de nós próprios. Porque são geografias imateriais – ainda que alicerçadas em terra, pedra e madeira – que importa recordar, vivendo-as hoje, é certo, mas com as marcas de ontem, a textura e a graça, o seu legado, a história que nos contam, sobre eles, os que já partiram, mas também sobre nós, os que lhes sucedemos.

A nós compete exigir. Ou cozer.

Concluída uma larga volta, eis-nos então de volta ao ponto de partida, qual rã em morninha tina de água: até onde vamos deixar aquecer o caldo em que ferve a nossa identidade, e se acordamos a tempo de saltar fora.
2 Comentários
Maria Sousa Belchior
28/9/2018 11:49:26

Não podemos., não devemos deixar ao abandono o legado dos nossos antepassados!
Obrigada ao Gonçalo pelo belo texto.

Responder
Gonçalo Duarte Gomes
1/10/2018 21:22:00

Maria Sousa Belchior, muito obrigado.
A importância da salvaguarda das nossas memórias é crescente, principalmente pelo tempo de referências cada vez mais efémeras que vivemos.

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