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Algumas curiosidades sobre o sector hoteleiro nacional

13/6/2017

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Por Luís Coelho.
 
Dedico o meu apontamento desta semana no Lugar ao Sul ao sector hoteleiro nacional. Como todos sabemos, este é um dos principais pilares do fenómeno turístico nacional, razão que por si só justifica a escolha do tema. Neste sentido, vamos lá falar de alguns números.
Munido de informação contabilística disponível na base de dados Amadeus (produto comercializado pela empresa Bureau van Dijk), decidi perceber como andou este sector de actividade no ano 2015, último para qual há dados disponíveis. Comecei por procurar as empresas que apresentaram a sua Informação Empresarial Simplificada nesse ano indicando como Código de Actividade Principal o número 551 (“Estabelecimentos hoteleiros”). Excluí em seguida todas as que não se constituíam como sociedades anónimas ou sociedades por quotas, o que permite centrar a análise naquelas que apresentam maior músculo e, potencialmente, maior capacidade empresarial. Retirei também as empresas que apresentaram contas consolidadas para evitar que a análise fique contaminada por realidades referentes a grupos empresariais. No final, limpei um pouco a informação contabilística fornecida pelo Amadeus, pois esta, aqui e ali, apresenta algumas inconsistências.
 
No final encontro 1.791 empresas que cumprem com os critérios mencionados acima. Em 2015, o total do activo destas empresas rondou os €9.1 mil milhões e a sua dívida bancária total ascendeu aos €3.9 mil milhões. Estas unidades deram emprego directo a 37.6 mil pessoas e os seus rendimentos operacionais totais foram de €2.3 mil milhões. Daqui, estas empresas pagaram €615.2 milhões à sua força de trabalho directa, tendo apurado um valor em sede de imposto sobre o rendimento das pessoas colectivas (IRC) na ordem dos 32.6 milhões. Já os accionistas viram a sua riqueza aumentar em 74.5 milhões (valor do resultado líquido agregado em 2015).
 
Not bad, verdade? Infelizmente não é bem assim. De facto, 19.9% das 1.791 empresas que considerei estão tecnicamente falidas. Tal significa que o valor reconhecido para o activo já não chega para fazer face ao passivo acumulado ao longo dos anos. Assim, os accionistas de uma em cada cinco empresas do sector deverão estar a pensar longamente se querem ou não continuar com o seu negócio hoteleiro. Para piorar o cenário temos que 35.3% dos casos considerados não são economicamente interessantes. Em particular, 632 empresas apresentam um resultado operacional negativo, algo que é altamente indesejável pois significa que as suas vendas (em rigor os rendimentos operacionais) não chegam para cobrir os gastos com a exploração. Não surpreende portanto que 40.1% das empresas em estudo reportem prejuízos em 2015, algo  manifestamente desinteressante para quem quer investir numa qualquer actividade económica.
 
Daqui se percebe que o sector apresenta algumas dificuldades. Destaco, naturalmente, a sua fraca rentabilidade. De facto, em média, por cada euro que os accionistas investiram no negócio em 2015 recuperam apenas 3.3 cêntimos (em financês dir-se-ia que o return on equity médio no período foi de 3.3%). Ora, entre 01/01/2015 e 31/12/2015, o PSI-20 (principal índice da bolsa nacional) experienciou um aumento de valor na ordem dos 12.9%, algo que coloca bem à vista o problema da rentabilidade do sector hoteleiro nacional. Depois, há também uma questão que se prende com a estrutura de capital destas empresas. Em particular, os dados de que disponho sugerem que a sua autonomia financeira média em 2015 foi de apenas 7.8%. Descomplicando: os accionistas colocam 7.8 cêntimos para financiar cada euro investido no negócio (i.e., o activo total da empresa). Resultado: o endividamento extremo grassa em grande parte do sector, com a banca e os fornecedores a serem chamados a financiar o grosso da operação.
 
Bem sei que esta análise vem algo tarde. Usar dados de 2015 quando estamos a meio de 2017 parece desadequado. Infelizmente, com o sistema de reporte que existe em Portugal, é difícil fazer melhor sem se ter acesso a dados que tipicamente não são partilhados pelos organismos públicos que os colectam (INE, Banco de Portugal, etc). Ainda assim, parece-me útil trazer os números acima à colação pois os mesmos permitem um debate mais desapaixonado sobre uma realidade económica cada vez mais importante no nosso País.
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